Santo Antônio de Jesus

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Em entrevista, Enderson faz balanço de 2018 e traça novos voos no Bahia

De contrato renovado para 2019, Enderson Moreira recebeu o CORREIO, falou sobre o ano e projetou os próximos passos. No bate-papo, o treinador tocou em pontos como o desempenho do garoto Ramires, a ausência de Zé Rafael em 2019, suas referências no futebol e o atual projeto do tricolor. A conversa na íntegra pode ser ouvida através do Bate-Pronto Podcast. 


Confira:
 Qual o balanço que você faz da atual temporada?
Costumo falar que tudo dá certo e tudo dá errado no futebol. Eu chegando observei a equipe, já tinha visto alguns jogos. Num primeiro momento eu não quis mexer muita coisa, pois a gente estava em uma sequência de finais. Jogos da Copa do Nordeste, semifinais, posteriormente as finais, então eu mexi pouco. Logo em seguida tivemos o jogo de volta da Copa do Brasil. Então assim, a partir desse jogo do Vasco, a gente teve uma conversa muito boa lá em Chapecó (antes do jogo contra a Chapecoense, dia 19 de julho). Eu tive tempo de explicar para eles o que eu gostaria a partir daquele jogo. Falei com eles de maneira clara (...), tentei mostrar pra eles o que eu achava que poderia ser o caminho diante do que a gente tinha pela frente e ali nós começamos a modificar um pouco a forma de jogar. Eles começaram a entender e colocar em prática aquilo que era a minha ideia de jogo para o Bahia.

Gosta de participar da construção do elenco? 
Acho que num processo técnico, a gente tem que unir forças de todas as formas. Sempre fiz esse trabalho por onde passei, de montagem de equipe, às vezes com uma atuação até maior do que eu realmente gostaria. O perfil aqui é diferente. Diego Cerri é um profissional extremamente qualificado em termos de entendimento de mercado, jogadores. O que a gente tem feito é um entendimento. É claro que a gente gostaria de terminar uma temporada mantendo grande parte da nossa base, mexendo minimamente. Acho que isso faz a gente ganhar muito tempo na temporada seguinte. Mas não é a realidade ainda do futebol brasileiro, que ainda depende muito dessas mudanças. Claro que algumas boas oportunidades, algumas apostas precisam ser feitas, para que a gente possa criar um mecanismo de que numa aposta dessa o Bahia tem possibilidade de uma venda futura.

Qual a solução para evitar o desgaste alto dos jogadores durante o ano?
Em lugar nenhum no mundo, onde se tem um futebol de bom nível, você vê um acúmulo de jogos como no Brasil. Acaba não valorizando o que tem de melhor, que é o jogo. O problema é que a gente tem um grande campeonato, que é o Brasileiro, que é competitivo, que não se pode prever quem serão as equipes que disputarão o título, a Libertadores, a Sul-Americana, o rebaixamento. Ao mesmo tempo a gente valoriza pouco a competição, porque fazemos jogos muito em sequência, a gente pega o primeiro semestre e carrega de jogos. Isso vai estourar mais pra frente. Temos um problema sério com calendário. O que eu quero para 2019 é que a gente possa garantir uma ótima pré-temporada. Não tem problema jogar. A gente só não pode jogar no início muitas vezes seguidas, interrompendo a preparação. Um outro ponto: estamos com muitos atletas jovens e é importante que a gente possa observar.

Pretende usar o time sub-23 no Campeonato Baiano?
Isso pode ser uma decisão da direção, mas não é basicamente aquilo que eu penso. Eu acho que a gente precisa garantir essa boa pré-temporada, tirar um pouco o número de jogos no início. A gente pode ter jogos nesses 30 dias, a gente só não pode só ter jogo. Treinar dez dias e começar uma sequência de jogos, que isso vai ser terrível. A partir do momento que a gente possa garantir isso, aí é uma questão da direção, mas a gente não tem nada fechado, temos conversado muito. Essas duas coisas temos na cabeça: possibilitar uma boa pré-temporada e oportunizar que os jogadores mais jovens, que a gente queira observar, tenham mais oportunidades.

Já está observando os garotos da base para 2019, assim como fez com Ramires?
A gente tem tido oportunidade nesse trabalho de puxar muitos atletas do sub-23, sub-20, sub-17 para que possam treinar com a gente. Às vezes precisamos de dois, três jogadores, vamos puxando, a gente sempre fez isso. A questão do Ramires foi de observação do comportamento dele perante a equipe principal. Isso é uma coisa que eu acho que temos que estar constantemente abertos. Não serão todos como Ramires, ele pode ser uma exceção. Eu trabalhei com base durante mais de 10 anos, sei muito bem o momento de lançar, de ter paciência. A diferença do sub-20 para o profissional é que ali vira um jogo de homens mesmo, no sentido figurado. Poderia ser jogo de menina com mulher também. Eu falo homem no sentido de um atleta formado, de força, capacidade física e técnica, maturidade.

E a saída de Zé Rafael?
Primeiro enaltecer muito Zé Rafael, a temporada que ele fez. Em alguns momentos, tecnicamente talvez ele não estava vivendo os seus melhores dias, mas a competitividade dele foi absurda, nunca deixou de participar, tentar. Mas o futebol é feito dessas trocas constantes. Eu não sou muito de lamentar. Sempre vejo como uma oportunidade que vai ser dada para outro atleta chegar e buscar o seu caminho. Vamos buscar algumas alternativas dentro do grupo, até as que possam chegar e que a gente possa qualificar muito a nossa equipe para 2019. Eu não vejo no Bahia, na verdade eu não vejo no mundo, muitas equipes que tenham uma dependência de determinado atleta. 

O que te surpreendeu na chegada ao Bahia? 
Eu vejo o Bahia com o terreno muito fértil para poder dar passos mais consistentes para que possa voltar a ser um protagonista do cenário nacional. Não é fácil, pois a desigualdade financeira é maior que antigamente. Eu fiquei muito feliz com o que encontrei, me surpreendeu de maneira muito positiva a organização do clube, os pés no chão que o clube tem hoje, de saber até onde pode ir, de não fazer coisas mirabolantes que não possa no futuro pagar. É dar um passo de cada vez e saber que está indo para um lugar melhor e um estágio mais elevado.

Como gosta de ver a sua equipe atuar?
Acho que a gente pode apresentar jogos mais qualificados, equipes melhores treinadas, mais compactadas, mais próximas, intensidade maior no jogo. Eu respeito muito a característica da equipe que estou trabalhando, o DNA. O futebol hoje não pode ser só transição para um lado, transição para o outro, que você não dá conta. As velocidades percorridas são praticamente as mesmas, mas a intensidade que são percorridas são diferentes. É muito dinâmico, mas as ideias não. As ideias são coisas fixas, que você tem que saber como compactar a equipe, em que momento você transita, em que momento tem um pouco mais de posse, de poder valorizar um pouco a bola quando percebe que precisa ganhar um pouco mais de espaço, abrir mais o rival.

Tem referências no futebol?
A Copa de 82 para mim foi marcante. Foi o momento que me fez apaixonar pelo futebol de uma maneira enorme. A Seleção de 82 não conquistou, mas deu uma lição maravilhosa para todo mundo que não entendeu. Em 82 a gente perdeu e encantou o mundo inteiro. É uma das grandes referências que eu tenho. Eu tive depois uma influência muito grande do Ricardo Drubscky, que foi meu treinador no sub-15 no Venda Nova, de Minas. Quando ele começou a me dar treino, eu falei: “Poxa, se eu não for jogador eu quero ser igual a esse cara”. Foi minha primeira referência. Só para terminar em termos de referência, eu não posso deixar de falar do Telê Santana, treinador mineiro, e seu Ênio Andrade, que esteve muito tempo lá e eu sempre tive uma grande referência.

Gosta mais de jogar com centroavante fixo ou móvel? Como vê Edigar Junio?
Gosto de ter no elenco jogadores com características diferentes. A questão de jogar com atacante mais fixo ou móvel, isso varia em cima de adversário, jogo e tudo. Eu gosto dos dois e até de uma terceira, de não ter um atacante mais de área, pode ser também interessante. Em relação ao Edigar, foi meu atleta no Atlético-PR, na base. Ele sempre foi um jogador de lado. Eu fiquei até surpreso com essa modificação dele para jogar mais centralizado. Acho que temos uma ótima oportunidade de ter um jogador que possa fazer duas funções. Eu gostaria muito de ganhar o Edigar como um jogador de lado.

Qual o motivo dos treinadores brasileiros não emplacarem na Europa?
As oportunidades que tivemos lá fora com grandes treinadores talvez eles não estivessem tão preparados assim. Acho que todos eram extremamente capazes de poder montar grandes equipes em campo. Eu tenho dúvida se fora de campo eles estavam preparados para o que iriam enfrentar, se estavam adaptados à cultura local. Aqui no Brasil tem muita questão emocional do jogador às vezes, lá eles têm uma conduta muito mais técnica. Eles querem saber o que eles vão fazer dentro de campo. Acho que esse processo a gente precisa melhorar. Melhorar as nossas oportunidades lá através do reconhecimento da nossa licença, que a gente possa ter a capacidade. Acho que esse é um grande problema nosso. 

Metas para 2019? Ficou frustrado com a eliminação na Sul-Americana?
Espero que a gente possa ter capacidade e condição de poder buscar coisas gigantescas. Me dói muito falar da Sul-Americana porque a gente fez quatro gols, sofremos só um e apenas um gol foi válido. Os outros três eu tenho muitas dúvidas se foram ilegais. Mesmo com VAR, fico muito chateado com isso, pois podíamos estar numa final, semifinal de Sul-Americana e a gente não sabe quando isso vai acontecer novamente. Uma coisa que quero e tenho falado com o nosso presidente é que a gente possa estar na primeira página do Brasileiro. É um passo de cada vez, estivemos perto este ano, mas ainda não conseguimos. Esse é um próximo passo. Estando entre os 10, fatalmente estaremos brigando por uma coisa enorme. Correio